S&P 500 e a Influência Oculta do Japão nos Mercados
Ontem discutimos os movimentos do JPY e, conforme antecipado, hoje abordamos brevemente sua relevância para os mercados globais de risco e para o principal benchmark mundial, o S&P 500.
Os setores bancário e de seguros do Japão estão entre os maiores e mais relevantes do mundo. Em 2024, os bancos japoneses detinham cerca de US$ 17 trilhões em ativos financeiros totais, com destaque para instituições como MUFG Bank, Sumitomo Mitsui Banking Corporation e Mizuho Bank. O mercado de seguros japonês é o segundo maior do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, com volume de prêmios próximo a US$ 363 bilhões ao fim de 2024. O setor administra mais de US$ 2 trilhões em ativos e representa aproximadamente 5% do mercado global.
As instituições financeiras japonesas desempenham papel central nos mercados globais, sendo um dos maiores detentores estrangeiros de Treasuries dos EUA, com US$ 1,138 trilhão em março de 2025. No passado, a Nippon Life Insurance Company chegou a ser a maior detentora individual desses títulos.
Os rendimentos dos títulos do governo japonês (JGBs) tornaram-se cada vez mais relevantes para o cenário global. O yield do JGB de 10 anos atingiu 2,09% em dezembro de 2025, o nível mais alto desde fevereiro de 1999, enquanto o de 30 anos chegou a 3,43%. Mais recentemente, o título de 40 anos superou 4,20%. Com a rápida elevação dos rendimentos, investidores japoneses tendem a repatriar capital aplicado em Treasuries e outros ativos globais para investir em JGBs, agora mais atrativos.
Esse movimento está ligado ao conhecido carry trade. Quando os juros no Japão permanecem baixos e o iene está fraco ou estável, investidores tomam empréstimos em iene para aplicar em ativos com maior rendimento globalmente, impulsionando o USD/JPY. Porém, quando o iene se fortalece rapidamente, essas posições alavancadas podem ser desmontadas com velocidade, forçando a venda de ativos de risco e recompra de iene. Em agosto de 2024, um unwind do carry trade levou o Nikkei a despencar 12,4%, desencadeando uma liquidação global que derrubou o S&P 500 em 9,6%.
Essas interconexões são profundas. Variações no câmbio do iene — influenciadas por yields dos JGBs, diferenciais de juros e eventuais intervenções políticas — têm impacto direto nos fluxos de capital japoneses para os EUA e demais mercados globais, com potencial de efeitos em cascata sobre preços de ativos.
O GRÁFICO
O gráfico apresentado não é uma análise técnica tradicional, mas uma visualização da relação entre USD/JPY e US500, sobrepostos horizontalmente no MT5. Observa-se claramente que movimentos de queda no USD/JPY — muitas vezes associados a intervenções do Ministério das Finanças do Japão — tendem a preceder ou coincidir com quedas no US500 e, de forma mais ampla, nos mercados globais de risco.
Em 2024, o fortalecimento do iene coincidiu com uma queda de 9,67% no índice norte-americano. No início de 2025, o drawdown chegou a 21,35% (neste caso, também influenciado por anúncios de tarifas). Nem sempre esse padrão se repete: a intervenção de 2023 ocorreu com mercados ainda em alta. Contudo, as condições atuais se assemelham mais aos dois episódios recentes, com o USD/JPY mais próximo de 160 do que de 150 e com um ambiente de juros japoneses significativamente mais elevado.
Trading envolve avaliação de probabilidades, não certezas. Ainda assim, é essencial observar os detalhes — especialmente aqueles que parecem irrelevantes até deixarem de ser.

