Ações SPAC Explicadas: Guia para Iniciantes
As Special Purpose Acquisition Companies (SPACs) tornaram-se uma das tendências mais comentadas nas finanças modernas nos últimos anos. De startups de fintech a fabricantes de veículos elétricos, muitas empresas privadas escolheram esse caminho mais rápido para entrar nos mercados públicos. No entanto, apesar do grande interesse gerado, muitos investidores ainda não entendem completamente como as ações SPAC realmente funcionam.
Este guia educativo explica as SPACs de forma simples, incluindo sua estrutura, benefícios, riscos, regulamentação e como elas se comparam aos IPOs tradicionais.
O que é uma ação SPAC?
Uma SPAC (Special Purpose Acquisition Company) é uma empresa listada em bolsa criada exclusivamente para captar recursos e, posteriormente, se fundir ou adquirir uma empresa privada. Como as SPACs abrem capital sem operações, produtos ou receita, elas são frequentemente chamadas de empresas de cheque em branco.
Os investidores compram ações com base principalmente na experiência e reputação dos patrocinadores (sponsors) que lançam a SPAC. Uma vez que a empresa-alvo é identificada e a fusão é concluída — processo conhecido como de-SPAC — a empresa privada passa a se tornar uma companhia de capital aberto.
Embora existam há décadas, as SPACs ganharam enorme popularidade entre 2020 e 2021, quando centenas de listagens levantaram centenas de bilhões de dólares globalmente. Esse crescimento foi impulsionado por taxas de juros baixas, alta liquidez nos mercados e forte participação de investidores de varejo.
Como funcionam as ações SPAC
Uma SPAC começa quando investidores experientes, fundos de venture capital ou grupos de private equity criam uma empresa “casca” e a levam à bolsa por meio de um IPO. Mesmo sem operações, os investidores podem comprar unidades que geralmente incluem ações e warrants. Os recursos captados são depositados em uma conta fiduciária protegida e não podem ser utilizados até que uma fusão ou aquisição seja concluída.
Após o IPO, a SPAC normalmente tem entre 18 e 24 meses para encontrar uma empresa privada para se fundir. Caso nenhum acordo seja fechado nesse período, a SPAC deve ser liquidada e os recursos devolvidos aos investidores, geralmente com juros acumulados.
Quando uma empresa-alvo é anunciada, os acionistas votam sobre a fusão proposta. Investidores que não concordarem com o negócio podem solicitar o resgate (redeem) de suas ações e recuperar sua parte proporcional dos recursos em custódia. Após o fechamento da fusão, a nova empresa combinada passa a negociar em bolsa sob um novo código (ticker).
Como comprar ações SPAC
As ações SPAC são negociadas nas principais bolsas de valores, assim como ações tradicionais. Os investidores podem comprá-las por meio de corretoras ou plataformas de trading.
Alguns investidores preferem exposição diversificada por meio de ETFs especializados em SPAC, como:
- Defiance Next Gen SPAC Derived ETF (SPAK)
- Morgan Creek-Exos SPAC Originated ETF (SPXZ)
- SPAC and New Issue ETF (SPCX)
- The De-SPAC ETF (DSPC)
No entanto, muitos ETFs de SPAC são relativamente novos e podem apresentar taxas de administração mais altas do que ETFs tradicionais.
SPAC vs IPO: Principais diferenças
Tanto as fusões via SPAC quanto os IPOs tradicionais permitem que uma empresa se torne pública, mas o processo e o perfil de risco diferem significativamente.
Processo inicial
IPO tradicional
- A empresa privada capta recursos diretamente dos investidores.
- Exige bancos de investimento, roadshows e ampla divulgação regulatória.
SPAC
- Uma empresa “casca” capta os recursos primeiro.
- Posteriormente se funde com uma empresa privada para levá-la ao mercado público.
Custos
IPOs tradicionais podem ser caros. Bancos de investimento frequentemente cobram entre 3,5% e 7% do valor captado.
Operações via SPAC geralmente reduzem alguns custos legais e de consultoria, já que o financiamento já foi obtido anteriormente.
Prazo
- Fusão via SPAC: 3 a 6 meses
- IPO tradicional: 12 a 18 meses
Esse cronograma mais rápido é um dos principais motivos pelos quais muitas startups optam pelo modelo SPAC.
Due diligence e transparência
Empresas que realizam IPO passam por intenso escrutínio regulatório antes da listagem. Historicamente, as fusões via SPAC enfrentavam revisões menos rigorosas, embora os reguladores tenham aumentado recentemente o nível de supervisão.
Continuidade da gestão
Em um IPO, os investidores conhecem a empresa e sua liderança antes de investir. Em uma SPAC, os investidores muitas vezes aplicam recursos antes mesmo de saber qual será a empresa-alvo.
Vantagens de listar via SPAC
Para empresas privadas, a fusão com uma SPAC oferece diversos benefícios potenciais. O processo pode proporcionar acesso mais rápido ao mercado de capitais, maior previsibilidade na avaliação (valuation) e a possibilidade de negociar diretamente os termos do acordo com os patrocinadores.
As SPACs também permitem maior flexibilidade na divulgação de projeções financeiras futuras durante as negociações, algo mais restrito em IPOs tradicionais. Isso pode ser especialmente atraente para startups de alto crescimento com forte potencial, mas receita atual limitada.
Empresas famosas que abriram capital via SPAC
Diversas empresas conhecidas ingressaram na bolsa por meio de fusões SPAC, incluindo DraftKings, Lucid Group, Virgin Galactic, WeWork, Opendoor, Nikola, Payoneer e Dave. Esses acordos de alto perfil impulsionaram a popularidade global das SPACs e atraíram ampla cobertura da mídia.
O que acontece após a fusão SPAC?
Após o anúncio da fusão, o preço das ações da SPAC costuma apresentar maior volatilidade enquanto os investidores avaliam a empresa-alvo. Uma vez concluída a operação, as ações da SPAC são automaticamente convertidas em ações da nova empresa listada.
Muitos investidores continuam negociando o papel normalmente, enquanto outros optam por exercer seus warrants ou vender suas posições. Períodos de bloqueio (lock-up) geralmente impedem que executivos e insiders vendam suas ações por seis a doze meses após a fusão, ajudando a estabilizar o preço e reduzir pressões de venda abruptas.
Por que muitas ações SPAC caem ao longo do tempo
Apesar da popularidade, pesquisas indicam que muitas ações SPAC enfrentam dificuldades após a fusão. Um dos motivos é que os patrocinadores são recompensados principalmente quando um acordo é concluído, o que pode gerar incentivo para fechar negócios mesmo quando não são ideais.
Além disso, o valor para os acionistas pode ser diluído por taxas, warrants e custos da transação, fazendo com que a empresa combinada receba menos caixa líquido do que o esperado. Algumas fusões também envolveram empresas com desempenho financeiro abaixo do previsto, reduzindo a confiança do mercado.
Como consequência, reguladores passaram a aumentar a supervisão das transações SPAC, exigindo maior transparência e proteção aos investidores.
Investidores devem considerar ações SPAC?
As SPACs oferecem oportunidades únicas:
- Acesso antecipado a empresas emergentes
- Caminho mais rápido para o mercado público
- Possibilidade de resgatar ações caso não aprovem a fusão
Mas também apresentam riscos:
- Empresa-alvo desconhecida no momento do investimento
- Potencial diluição
- Histórico de desempenho fraco no longo prazo
Conclusão
As SPACs transformaram a forma como empresas abrem capital, oferecendo uma alternativa mais rápida e flexível aos IPOs tradicionais. Embora proporcionem acesso antecipado a empresas inovadoras e setores emergentes, também introduzem riscos adicionais que os investidores precisam compreender.
Antes de investir em ações SPAC, é essencial realizar uma análise cuidadosa e pesquisa aprofundada. Como em qualquer investimento, entender a estrutura, os incentivos envolvidos e as perspectivas de longo prazo pode ajudar a tomar decisões mais estratégicas e gerenciar riscos de forma eficiente.


