USDCNH Enfraquece Após Decisão Esperada do PBoC
Na noite de terça-feira, 24 de fevereiro de 2026, o Banco Popular da China (PBoC) realizou sua reunião de política monetária. Embora esse evento costume receber menos atenção do varejo, permanece altamente relevante para o posicionamento macro. O banco central manteve a Loan Prime Rate (LPR) de um ano em 3,00% — sua principal taxa de referência — e preservou a LPR de cinco anos em 3,50%, marcando o nono mês consecutivo sem alterações. A decisão esteve totalmente alinhada às expectativas do mercado.
Dois fatores principais reduziram a urgência de novos cortes. Primeiro, os bancos chineses operam com margens líquidas de juros comprimidas; reduções adicionais prejudicariam significativamente a rentabilidade do setor. Segundo, o desempenho das exportações segue robusto, limitando a necessidade de estímulo monetário imediato. Em essência, embora as condições domésticas permaneçam desiguais, o setor externo continua oferecendo suporte suficiente ao crescimento.
Atualmente, o USDCNH é negociado a 6,8358, mínima em 33 meses. O yuan acelerou seu movimento de valorização nas últimas sessões. Esse movimento é relevante por diversos motivos. Nos últimos quinze anos, as autoridades chinesas gerenciaram ativamente a taxa de câmbio, frequentemente permitindo a depreciação do renminbi em períodos de desaceleração econômica para sustentar a competitividade. Desde 2022, a faixa entre 7,20 e 7,35 no USDCNH tornou-se um limite superior crítico, refletindo tensões estruturais na economia chinesa.
Apesar de áreas de resiliência, a China ainda enfrenta desafios relevantes: correção prolongada no setor imobiliário, consumo doméstico contido, dinâmica demográfica adversa e pressões deflacionárias persistentes. Ainda assim, o principal motor da força atual do yuan é o setor exportador. No início de 2025, o superávit comercial da China expandiu-se significativamente, alcançando US$ 125,4 bilhões apenas no primeiro trimestre. Superávits dessa magnitude geram entradas estruturais de moeda estrangeira, à medida que exportadores recebem dólares e os convertem em yuan, criando demanda sustentada por CNH.
A China nunca completou uma transição plena para um modelo de crescimento liderado pelo consumo interno após a crise financeira global de 2008, mantendo-se estruturalmente orientada às exportações. No entanto, um yuan mais forte hoje é menos prejudicial à competitividade do que no passado, já que o país avançou significativamente na cadeia de valor. Em setores como veículos elétricos, painéis solares, baterias, máquinas industriais e eletrônicos avançados, a competição ocorre cada vez mais com base em tecnologia, escala e integração de cadeias produtivas, e não apenas em preço.
Outro fator estrutural por trás da queda do USDCNH é a realocação estratégica das reservas internacionais da China, reduzindo exposição a Treasuries dos EUA. Nos últimos anos, o país tem sido vendedor líquido de títulos do governo americano, em cerca de US$ 50 bilhões por ano, refletindo uma estratégia de diversificação mais ampla.
É importante destacar que o USDCNH — o yuan offshore negociado por investidores internacionais — não é um par totalmente flutuante. O PBoC estabelece diariamente uma taxa de referência para o yuan onshore (CNY), que funciona como âncora de política e mecanismo de sinalização para os mercados onshore e offshore. Trata-se de um regime cambial administrado, que combina exposição internacional com controle significativo das autoridades sobre a dinâmica de valorização.
Em resumo, mesmo que este não seja um dos pares mais voláteis, monitorá-lo oferece informações valiosas. Ele funciona não apenas como indicador da saúde estrutural da economia chinesa, mas também — e talvez mais importante para investidores globais — como termômetro da força e qualidade da demanda mundial, variável que deve permanecer no radar de qualquer estratégia macro consistente.

